“Criança que planta couve entende por que chuva atrasada muda o jantar. Isso não aparece em slide de aula.” — Professora Ana Lúcia, EMEF Professor Sá
Horta comunitária no bairro Santa Efigênia em Belo Horizonte

Entre um prédio residencial e uma oficina mecânica, um terreno de trezentos metros quadrados ficou cercado e vazio por mais de cinco anos no Santa Efigênia, região central de Belo Horizonte. Em agosto de 2025, moradores e a escola municipal vizinha ocuparam o espaço legalmente — com autorização escrita do proprietário — e hoje ele produz hortaliças, ervas medicinais e conversa sobre cidade.

O acordo que abriu o portão

O Coletivo Raiz Cidade reuniu assinaturas de trinta famílias e apresentou proposta ao dono do lote: uso temporário para horta comunitária, seguro de responsabilidade civil pago pelos participantes e compromisso de devolver o terreno limpo se houver obra. “Ele topou porque a alternativa era manter grades enferrujadas e cobrança de IPTU sem uso”, explica João Pedro Silva, um dos fundadores do coletivo.

A prefeitura não financiou a estrutura inicial, mas a Secretaria de Meio Ambiente cedeu composteira e orientação sobre plantio em solo urbano. Testes de metais pesados no terreno deram resultado dentro do limite para horta com barreira de geomembrana e canteiros elevados nas áreas mais críticas.

O que vai para a marmita

A horta não alimenta o bairro inteiro — e nunca prometeu isso. Semanalmente, cerca de vinte famílias recebem cestas rotativas com couve, rúcula, hortelã, cebolinha e, na estação, tomate cereja. A distribuição segue lista de prioridade acordada em assembleia: famílias com crianças pequenas, idosos que moram sozinhos e participantes que revezam turnos de manejo.

O excedente vai para a cozinha solidária da associação de moradores, que prepara quatrocentas refeições por semana. “É volume modesto, mas constante”, diz João Pedro. “E reduz compra de sacola no supermercado.”

Escola no canteiro

A EMEF Professor Sá firmou parceria para oficinas quinzenais. Crianças do quarto e quinto ano medem chuva num pluviômetro de garrafa PET, registram brotamento num caderno coletivo e aprendem a separar casca de legume para compostagem. A professora Ana Lúcia destaca que o currículo ganhou pontes com ciências e geografia sem forçar didática.

“Quando seca, eles vão ver por que a rega mudou. Quando aparece pulgão, aprendem controle biológico com calda de alho — não veneno às cegas.” Pais que nunca tinham pisado na horta passaram a participar dos mutirões depois das apresentações das crianças.

Desafios de manter o projeto vivo

Vandalismo pontual e roubo de ferramentas aconteceram nos primeiros meses. A resposta foi horário de funcionamento combinado, iluminação solicitada à prefeitura e vizinhança que passa a circular mais pelo trecho. O maior risco agora é sucesso: mais gente querendo cesta do que canteiro aguenta produzir.

O coletivo estuda expandir para telhado de prédio vizinho com autorização do síndico. Enquanto isso, mantém transparência: planilha de gastos no mural e reunião aberta toda primeira quinta-feira do mês. “Horta urbana é política de comida e de território”, resume João Pedro. “E só funciona se ninguém ficar de fora da conversa.”

Retrato de Beatriz Almeida